A
música de Adeildo Vieira
Walter Galvão - jornalista
Um camaleão sonoro que trabalha o imaginário da música popular contemporânea
condensando gêneros, entrelaçando ritmos, ampliando e propondo estratégias
criativas. Um letrista que abastece as imagens que cria com as estruturas
lingüísticas performáticas da poesia e a espontaneidade coloquial da
fala urbana que atapeta as ruas. Um intérprete que se expressa sob
o toldo da contenção e do rigor formal, extraindo do momento a pureza
de uma comunicação musical repleta de simplicidade e beleza. Assim é Adeildo
Vieira, compositor paraibano que ocupa com maturidade e serenidade
a cena musical do Estado. Artista que se destaca por força de qualidades
que estão muito bem representadas no DVD “Chega junto” gravado ano
passado durante show de mesmo nome realizado no Teatro Santa Roza e
lançado recentemente.
Plasma pop e ritmos afro-cubanos
Adeildo é apoiado por uma banda em que os músicos (Leo Meira, Gledson
Meira, Helinho Medeiros, Jorge Negão, Jefferson dos Santos, Dida Vieira,
Salvador Di Alcântara) atuam como sinalizadores da diversidade e de
todo o potencial expressivo dos gêneros fertilizadores que definem
as tradições musicais nordestinas e brasileiras. O resultado do trabalho é a
expansão dos recursos pessoais do autor enquanto cancionista sintonizado
com erupções vanguardistas da nossa cultura musical, Bossa Nova, Tropicália,
Jaguaribe Carne, Oficina Literária, Mangue Beat, entre outros movimentos.
O trabalho de Adeildo não é a contração ou condensação pura e simples
do legado dessas vanguardas. Além de uma operação referencial que indica
linhas de pesquisa a partir desse legado, a música por ele produzida
tem autonomia autoral. Manifesta-se um caleidoscópio de invenções e
provocações melódico-harmônicas alimentado basicamente por um plasma
pop (a guitarra neste DVD serve de índice da dicção pop) fundido no
caldo iniciático dos ritmos afro-cubanos.
Códigos em miscigenação
Assim, é possível no DVD encontrarmos uma complexa elegância de células
musicais em miscigenação festiva, gregária, mobilizando à dança e à reflexão.
Exemplos: numa base rítmica 4x4 característica do baião e do rock,
entre outros ritmos caros aos múltiplos idiomas musicais que praticamos,
uma cortina harmônica de samba-soul comparece resgatando contribuições
dos grandes momentos inventivos da história da MPB protagonizados por
Tim Maia e Jorge Benjor. Há desenhos harmônicos evocativos do melhor
João Bosco, do melhor Djavan. Naturalmente, evoluem em meio à marcação
do compasso ternário de um bolero, com suas respiração melancólica,
elementos típicos da hibridação harmônica da Bossa Nova engastada numa
série de acordes dedilhados por Adeildo. Numa cena musical em que Milton
Dornelles, e Eleonora Falcone, Gustavo Magno, Paulo Ro, Soraya Bandeira
e Pedro Osmar, Dida Fialho e Fuba, Didier Guigue, Paulinho de Tarso,
Cacá Santa Cruz, Xisto Medeiros, Oliveira de Panelas, e tantos outros
nomes nacionais a exemplo de Zé Ramalho, Chico César, Renata Arruda,
Elba Ramalho, Antonio Barros e Cecéu, Genival Lacerda mantêm altíssimas
temperaturas criativas, a presença de Adeildo Vieira é ponte entre
gêneros e gerações. Um caso típico da melhor extração.